segunda-feira, 9 de outubro de 2023

HENRIQUE LEOPOLDO SOARES DA CÂMARA

 

HENRIQUE LEOPOLDO SOARES DA CÂMARA 

(DEPUTADO PROVINCIAL)

POR LUÍS DA CÂMARA CASCUDO

Ninguém o recorda mais. Era um dos nomes mais populares no Rio Grande do Norte. Recebeu tempestades de palmas em discursos que, na falta da taquigrafia a memória entusiasta conservou fielmente longos trechos. Homem culto, simples, espirituoso, abria nos corações os lugares íntimos para fundas amizades duradouras. Foi um dos mais atilados e prestigiosos “leaders” do Partido Conservador

Henrique Leopoldo Soares da Câmara nasceu em Fortaleza, Ceará, a 13 de setembro de 1844. Doutor em Medicina no Rio de Janeiro a 27 de novembro de 1868.

Veio para Natal, logo depois do curso, clinicar, chamado pelo irmão do seu Pai.

Esse tio era o coronel Bonifácio, Bonifácio Francisco Pinheiro da Câmara, chefe dos Conservadores norte-rio-grandenses ou guia de sua maior parte na província. Henrique Câmara foi cinco vezes Deputado Provincial, 1870-71, 72-73, 74-75, 82-83, 84-85. O coronel Bonífácio faleceu no Dia de Finados de 1884. Com ele apagava-se a estrela política do sobrinho. Anos depois Henrique Câmara viajou para o sul. Foi ainda médico nos navios Loyd Brasileiro. Faleceu no Rio de Janeiro a 7 de julho de 1922.

À sombra do coronel Bonifácio viviam os lugares-tenentes, inquietos e decididos, Francisco Gomes da Silva Júnior, outro sobrinho, formado em Paris, Deputado Geral em 1869-72, com o Chefe dos Cabrais, Otaviano Cabral Ra· poso da Câmara. O Padre João Manoel de Carvalho, outro mordomo-mor saquarema, não ficara satisfeito. Ele é que devia ter ido logo. Gomes e João Manoel tinham tido a idéia de oferecer ao conselheiro Francisco de Sales Torres Homem, então diretor do Banco do Brasil, figura salientíssima do Partido Conservador, a vaga senatorial que se abrira com a morte de dom Manoel d’Assis Mascarenhas, em janeiro de 1867. Esse golpe obrigara a solidariedade de todo o Partido, em âmbito nacional e avolumara as credenciais dos dois jovens potiguares. Torres Homem fora eleito e Gomes da Silva passou à Câmara dos Deputados. Na legislatura seguinte. 1873-74, morrera Otaviano que tinha eleitorado positivo, e João Manoel foi Deputado Geral. Nesta, como na outra, subsequência, em que Tarquínio Bráulio de Souza Amaranto seria reeleito a opinião pública apontava Henrique Câmara como um “preterido”, um despojado dos seus legitíssimos direitos.

Fundou jornais, fez discursos, guiou eleitores, bateu-se e debateu-se na Assembléia contra adversários ou correligionários, hábil, eloquente, rápido nas soluções e recursos da técnica partidária.

Henrique Câmara possuia a melhor e mais variada biblioteca de Natal entre 1870 e 1880. Em alemão, inglês, francês, italiano, espanhol. Lia Goethe, Byron, Taite, Carducci, Lope de Vega. Foi o primeiro a ter e ler Spencer, Darwin, os enciclopedistas, os evolucionistas, historiadores, sociólogos, Comte, Thierry, todo o Lamartine, Hugo, Carlyle. Os restos de sua livraria estão no Instituto Histórico e raros leitores ousam aproximar-se. É uma surpresa saber-se que ele tinha os livros indus e chineses, que sabia Max Muller e Liebrecht, dizia versos de Shelley e de Verlaine. Estranho doutor Henrique Câmara! Compreende-se que ele tinha contra si três elementos negativos da popularidade política, três fatores anti-políticos, anti-populares, antidemocráticos, a cultura, o gosto, a seleção.

Sabia fazer amigos e distribuiu consultas gratuitas como os alegres “bons dias”. Vez por outra uma anedota, semi-esquecida, sobrenada, fazendo-o presente, evocando o ambiente em que viveu e as figuras convividas.

O doutor José Paulo Antunes, médico, poliglota, muito preto, muito cioso de sua sabedoria, muito importante e prestigioso, ficava cinzento de raiva quando alguém lembrava, inadvertidamente a coloração do seu pigmento, turras perpétuas. Antunes nunca foi Deputado mas tinha ambos médicos, Antunes e Henrique Câmara viviam às a mania de assistir às sessões da Assembléia e apartear os oradores. Henrique Câmara pediu que não fizesse essa habilidade quando ele se encontrasse na tribuna. Antunes fazia justamente o contrário para provar independência.

Um dia foi à Assembléia. Câmara discursava. Antunes, não se contendo, largou das galerias um aparte. Câmara, sem perder o fio vibrante da voz, esgotou o assunto e entrou na peroração, exaltando o império da Lei, pairando imortal sobre todos e sobre tudo. Lá, para os finais, subindo a voz, gesticulando o braço, declarou:

– “Senhor Presidente, ante a lei reina a igualdade real. Todos se curvam ante seu império e se rendem à sua divina força. Ê a mesma para ricos e pobres, plebeus e nobres. Para ela tanto vale um branco ...

E estendeu a mão para o dr. José Moreira Brandão Castelo Branco que presidia a sessão, muito, alvo, a barba branca, composto, sério, protocolar e grave

E, virando o dedo para o doutor Antunes, indicando-o ao riso que rebentou como um trovão irreprimível: – “como o Negro! ...”

FONTE: CÃMARA CASCUDO, Luís da. Uma História da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte. Natal-RN, Fundação José Augusto, 1972. (págs. 358-360

HENRIQUE LEOPOLDO SOARES DA CÂMARA

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