HENRIQUE LEOPOLDO SOARES DA CÂMARA
(DEPUTADO PROVINCIAL)
POR LUÍS DA
CÂMARA CASCUDO
Ninguém o recorda mais. Era um dos nomes mais populares no
Rio Grande do Norte. Recebeu tempestades de palmas em discursos que, na falta
da taquigrafia a memória entusiasta conservou fielmente longos trechos. Homem
culto, simples, espirituoso, abria nos corações os lugares íntimos para fundas
amizades duradouras. Foi um dos mais atilados e prestigiosos “leaders” do
Partido Conservador
Henrique Leopoldo Soares da Câmara nasceu em Fortaleza,
Ceará, a 13 de setembro de 1844. Doutor em Medicina no Rio de Janeiro a 27 de
novembro de 1868.
Veio para Natal, logo depois do curso, clinicar, chamado pelo
irmão do seu Pai.
Esse tio era o coronel Bonifácio, Bonifácio Francisco
Pinheiro da Câmara, chefe dos Conservadores norte-rio-grandenses ou guia de sua
maior parte na província. Henrique Câmara foi cinco vezes Deputado Provincial,
1870-71, 72-73, 74-75, 82-83, 84-85. O coronel Bonífácio faleceu no Dia de
Finados de 1884. Com ele apagava-se a estrela política do sobrinho. Anos depois
Henrique Câmara viajou para o sul. Foi ainda médico nos navios Loyd Brasileiro.
Faleceu no Rio de Janeiro a 7 de julho de 1922.
À sombra do coronel Bonifácio viviam os lugares-tenentes,
inquietos e decididos, Francisco Gomes da Silva Júnior, outro sobrinho, formado
em Paris, Deputado Geral em 1869-72, com o Chefe dos Cabrais, Otaviano Cabral
Ra· poso da Câmara. O Padre João Manoel de Carvalho, outro mordomo-mor
saquarema, não ficara satisfeito. Ele é que devia ter ido logo. Gomes e João
Manoel tinham tido a idéia de oferecer ao conselheiro Francisco de Sales Torres
Homem, então diretor do Banco do Brasil, figura salientíssima do Partido
Conservador, a vaga senatorial que se abrira com a morte de dom Manoel d’Assis
Mascarenhas, em janeiro de 1867. Esse golpe obrigara a solidariedade de todo o
Partido, em âmbito nacional e avolumara as credenciais dos dois jovens
potiguares. Torres Homem fora eleito e Gomes da Silva passou à Câmara dos
Deputados. Na legislatura seguinte. 1873-74, morrera Otaviano que tinha
eleitorado positivo, e João Manoel foi Deputado Geral. Nesta, como na outra,
subsequência, em que Tarquínio Bráulio de Souza Amaranto seria reeleito a
opinião pública apontava Henrique Câmara como um “preterido”, um despojado dos
seus legitíssimos direitos.
Fundou jornais, fez discursos, guiou eleitores, bateu-se e
debateu-se na Assembléia contra adversários ou correligionários, hábil,
eloquente, rápido nas soluções e recursos da técnica partidária.
Henrique Câmara possuia a melhor e mais variada biblioteca de
Natal entre 1870 e 1880. Em alemão, inglês, francês, italiano, espanhol. Lia
Goethe, Byron, Taite, Carducci, Lope de Vega. Foi o primeiro a ter e ler
Spencer, Darwin, os enciclopedistas, os evolucionistas, historiadores,
sociólogos, Comte, Thierry, todo o Lamartine, Hugo, Carlyle. Os restos de sua
livraria estão no Instituto Histórico e raros leitores ousam aproximar-se. É
uma surpresa saber-se que ele tinha os livros indus e chineses, que sabia Max
Muller e Liebrecht, dizia versos de Shelley e de Verlaine. Estranho doutor
Henrique Câmara! Compreende-se que ele tinha contra si três elementos negativos
da popularidade política, três fatores anti-políticos, anti-populares,
antidemocráticos, a cultura, o gosto, a seleção.
Sabia fazer amigos e distribuiu consultas gratuitas como os
alegres “bons dias”. Vez por outra uma anedota, semi-esquecida, sobrenada,
fazendo-o presente, evocando o ambiente em que viveu e as figuras convividas.
O doutor José Paulo Antunes, médico, poliglota, muito preto,
muito cioso de sua sabedoria, muito importante e prestigioso, ficava cinzento
de raiva quando alguém lembrava, inadvertidamente a coloração do seu pigmento,
turras perpétuas. Antunes nunca foi Deputado mas tinha ambos médicos, Antunes e
Henrique Câmara viviam às a mania de assistir às sessões da Assembléia e apartear
os oradores. Henrique Câmara pediu que não fizesse essa habilidade quando ele
se encontrasse na tribuna. Antunes fazia justamente o contrário para provar
independência.
Um dia foi à Assembléia. Câmara discursava. Antunes, não se
contendo, largou das galerias um aparte. Câmara, sem perder o fio vibrante da
voz, esgotou o assunto e entrou na peroração, exaltando o império da Lei,
pairando imortal sobre todos e sobre tudo. Lá, para os finais, subindo a voz,
gesticulando o braço, declarou:
– “Senhor Presidente, ante a lei reina a igualdade real.
Todos se curvam ante seu império e se rendem à sua divina força. Ê a mesma para
ricos e pobres, plebeus e nobres. Para ela tanto vale um branco ...
E estendeu a mão para o dr. José Moreira Brandão Castelo
Branco que presidia a sessão, muito, alvo, a barba branca, composto, sério,
protocolar e grave
E, virando o dedo para o doutor Antunes, indicando-o ao riso
que rebentou como um trovão irreprimível: – “como o Negro! ...”
FONTE: CÃMARA CASCUDO, Luís da. Uma História da Assembléia Legislativa do Rio
Grande do Norte. Natal-RN, Fundação José Augusto, 1972. (págs. 358-360